Álcool causa o maior número de internamentos dentre usuários de drogas

De acordo com estatísticas da Secretaria Municipal de Bem Estar Social, coletadas em programas de assistência, 54% dos internamentos realizados são de dependentes do álcool.

De 27 pessoas, pelo menos 15 foram internadas em virtude do alcoolismo. Isto representa 54% do total de internamentos.

O número de atendimentos realizados pelo Programa Valorizando a Vida pelo abuso do álcool também é significativo.

Em 2007, foram 16 dependentes do álcool atendidos frente a 18 por outras substâncias químicas, o que representa 47% do total. O programa Valorizando a Vida busca estimular o desenvolvimento de habilidades e talentos artísticos e esportivos, ocupando o tempo ocioso de crianças e adolescentes, evitando marginalização e situações de risco pessoal e social.

“O projeto trabalha a prevenção de drogas com o desenvolvimento do lazer lúdico, mostrando o lado bom da vida para as crianças para elas se envolverem”, explica a psicóloga Joseane Aparecida Valomi de Carvalho.

Os dependentes químicos que chegam ao programa têm o estado de dependência avaliado e encaminhado para tratamento em Irati ou em clínicas de outros municípios. Em seguida, trabalha-se a auto-estima da pessoa. “Muita gente chega aqui sem estar consciente que está no ‘fundo do poço’ por causa da droga”, relata Joseane.

Alguns fatores, elencados pela psicóloga ainda contribuem para o processo de degradação da auto-estima, colaborando até mesmo no aumento de chances de recaída, como a falta de apoio familiar e a omissão da sociedade. “A sociedade critica o poder público quando encontra alguém caído, mas se omite frente à situação”, destaca Joseane.

“É uma batalha para restaurar a auto-estima. Começamos buscando a reinserção social através do trabalho. Temos que cuidar porque não pode ser um lugar com álcool, que não tenha facilidade para encontrá-lo e há aqueles lugares que, ao invés de ofertar uma pacote de arroz, feijão, oferece álcool, cerveja”, comenta a psicóloga.

Prevenção

Para Joseane, a prevenção começa com uma mudança de atitude por parte da sociedade. “A procura por ajuda só se dá quando se tem um problema. Na dependência, não existe cura, mas tratamento. A sociedade tem que estar consciente.

Uma pesquisa recente revelou que os pais não conversam sobre drogas com os filhos”, afirma ela, lembrando, inclusive, a fraca adesão da comunidade à Semana de Prevenção ao Uso de Drogas, realizada de 23 a 29 de junho em Irati, com diversas atividades abertas à participação da população.

O Programa Valorizando a Vida atende dependentes químicos desde fevereiro de 2007, onde sua condição é avaliada frente à droga, bem como os vínculos sociais e familiares.

O relato de um dependente químico

Rubens* é mais um nas estatísticas de dependência química de uma droga lícita de fácil acesso, o álcool. Por envolver fatores como pré-disponibilidade para desenvolver o vício e por ter como origem uma droga de características sociais, ou seja, a ingestão é feita geralmente com outras pessoas, sendo que estas muitas vezes a oferecem, o controle do alcoolismo envolve uma série de dificuldades para o usuário.

Com dificuldades até para relatar sua experiência com o álcool, Rubens, 38 anos conta sua história e as dificuldades para abandonar a dependência. Os traumas decorrentes deste uso – a perda do emprego, do convívio em sociedade e, principalmente, da família, o deixam trêmulo e muito nervoso ao relatar seu drama pessoal. Mas já expressam um avanço, ao mostrar que tem consciência de sua situação frente ao problema.

“Desde os 22 anos eu uso álcool e cada vez que o tempo ia passando, fui usando mais. Tentei me curar, mas não achava o caminho. E fui bebendo, mais e mais… Quando cheguei aos 30 anos já estava bem ‘afundado’ no álcool. Perdi minha família há alguns anos, minha esposa, meu filho. Quando dei por mim, minha vida era uma tragédia. Hoje estou vendo se consigo me recuperar. Tentei parar e fiquei algum tempo sem beber. Mas você pára um pouco e daí está na casa de recuperação e parece estar às mil maravilhas. Mas aí você sai de lá, como é o meu caso, vai para a rua e acaba entrando novamente no álcool.

Cheguei a usar outras drogas – um crack e um baseado -, para dar uma esquentada quando estava na rua. Usei umas 4 ou 5 vezes. Com o álcool tudo começou com uma brincadeira. Quando percebi, já estava ficando sério. Só fui perceber mesmo quando perdi minha família. Eu não lembro muita coisa do que acontecia. Eles me tentavam lembrar o que tinha feito no dia anterior… Judiei muito da minha família.

Até minha esposa me levou para fazer tratamento, ‘benzimento’. Ela me pediu para levar a uma mulher em Rebouças. Lá, esta mulher me disse para buscar um litro de pinga para uma simpatia e acabei tomando tudo. Também já passei por brigas. Tentei suicídio umas quatro vezes. Na primeira vez, dei uma facada no peito. Tinha bebido muito, não sei se acabei caindo à noite e as pessoas me acharam caído… Em outra ocasião, tentei tomar 80 comprimidos anti-etanol com bebida. Acordei 3 dias depois.

Agora, estou há uma semana sem beber. Quero ver se consigo um trabalho, uma vida descente, que é o melhor para a gente. Tendo um apoio é mais fácil para sair dessa vida. O álcool me tirou o serviço. Faz tempo que não converso com minha família e eles nem querem me ouvir… Já estão cansados. A única coisa em que resta se apoiar é Deus e tocar a vida para frente”.

*Rubens é nome fictício

Fonte: João Quaquio

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