Médicos alertam para males do alcoolismo

Em tempos de “Lei Seca”, especialistas de grupos de auto-ajuda alertam para os riscos do consumo excessivo do álcool.

No momento em que a “Lei Seca” e os bafômetros evidenciam a ligação entre o uso de bebida alcoólica e acidentes no trânsito, psiquiatras e membros de grupos de auto-ajuda que reúnem alcoólatras alertam que o consumo de álcool pode revelar sintomas de uma doença hereditária: o alcoolismo.

Os efeitos dessa doença são tratados dentro dos grupos de auto-ajuda. E cada vitória é comemorada com muita festa.

É o caso dos sete anos que o instrutor de Arte e Serigrafia do Centro de Atenção Psicossocial Bacelar Viana, do Hospital Nina Rodrigues, José Augusto completou este mês sem utilizar bebidas alcoólicas e outras drogas.

O fato foi considerado uma conquista relevante e celebrado com uma festa no auditório do Nina Rodrigues. No auge do alcoolismo, em 2001, José Augusto enfrentou problemas nas relações familiares e perdeu emprego e amigos.

Sem saída, aceitou fazer tratamento no Hospital Nina Rodrigues. Passou a freqüentar reuniões do Provida, grupo de auto-ajuda que presta assistência psiquiátrica e terapêutica a usuários de álcool e outras drogas.

Sobriedade

Depois de alguns meses, ele recuperou o estado de sobriedade e retomou sua vida cotidiana fora do hospital. Hoje, é um próspero professor e artista. Casado, dois filhos, ele trabalha e faz planos profissionais para o futuro. “Zé Augusto é um exemplo de perseverança e amor pela vida”, afirma a médica psiquiatra Amarílis Toledo.

Na festa, membros do Provida e dos Alcoólicos Anônimos (AA) contaram como perderam tudo por causa do uso de álcool e como conseguiram recuperar a sobriedade participando regularmente das reuniões de um grupo de auto-ajuda. Um senhor, funcionário público federal, se emocionou ao falar como chegou ao “fundo do poço” por causa do álcool e como reencontrou a lucidez.

Vários jovens aproveitaram a festa para relatar a sua luta para deixar de beber e reconquistar a auto-estima. Todos eles foram prestar solidariedade ao esforço de José Augusto. “Sabemos que a luta contra o alcoolismo é difícil, é uma batalha diária”, disse um deles. Por isso mesmo entre os vários lemas do AA estão: “é só por hoje” e “avante e sempre alerta”.

Com ares de vitorioso, José Augusto recordou os tempos difíceis que passou e agradeceu o apoio. Segundo ele, logo que entrou no Provida ouvia algumas pessoas dizerem que estava há 20 anos sem beber.

Ele pensava que era mentira e desconfiava de que os depoentes bebessem escondido. “Hoje sei por experiência própria que isso é possível”, reconhece. “Os que se mantêm sóbrios e os que recaem mas voltaram a lutar em favor da sobriedade, todos são vencedores”, enalteceu a diretora do Grupo Pró-Vida, Arlete Cutrim.

Alerta

O médico psiquiatra Geraldo Melônio lembra que há pessoas que, ao mesmo tempo em que bebem, mantêm relacionamentos familiares estáveis e bom desempenho no trabalho. “Bebida não é um vício para eles e é preciso respeitar esse direito”, explica. Contudo, ele chama a atenção para os que usam bebidas alcoólicas e matam no trânsito, destroem seus relacionamentos familiares, perdem seus empregos e bens. “Nesse caso, é preciso combater o problema sem preconceitos”, garante.

Em muitas situações, segundo Melônio, filhos, cônjuges e pais de usuários de álcool são vítimas até de espancamentos. O dinheiro da família de muitos usuários de álcool, alcoólatra ou não, é destinado apenas ao consumo de bebidas, e o desempenho no trabalho e nos estudos, tanto dos usuários como de seus familiares é seriamente comprometido.

Cura

A situação se complica, segundo Melônio, porque a população tem dificuldades de estabelecer fronteiras bem delimitadas entre o que é beber socialmente, o que é estar viciado na bebida e quando o consumo do álcool é uma doença hereditária sem cura definitiva.

Por outro lado, já é fato cientificamente comprovado no meio médico de que, apesar de a doença associada ao uso de bebidas alcoólicas não ter cura, ela pode ser controlada. Nos últimos anos, aprofundaram-se os estudos sobre a hereditariedade na dependência do álcool, com atenção aos fatores genéticos que transmitem vulnerabilidade ao alcoolismo.

Os médicos recomendam que qualquer usuário de álcool, inclusive o que bebe socialmente, deve procurar um psiquiatra para avaliar sua situação. “Quem tem parente alcoólatra deve ter muito mais cuidado”, alerta a psiquiatra Amarílis Toledo.

É praticamente consenso no meio científico que há um modelo epigenético de desenvolvimento do transtorno, no qual condições biológicas hereditárias associem-se a situações ambientais ao longo da vida para a produção da dependência do álcool.

Fonte: O Estado do Maranhão – MA

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