Opinião: por Paulo Leme do Movimento Vale a Pena

Não há guerra

Temos falado, em inúmeras oportunidades, a respeito dos incontáveis problemas causados pelo alcoolismo, seja no que diz respeito às suas graves consequências sociais, seja no que diz respeito à tragédia familiar e individual que doença representa.

Que fique, porém, muito claro: não tenho nada contra quem bebe. Muito pelo contrário: tenho bons – e muitos queridos – amigos que bebem. São pessoas, via de regra, que bebem e não criam problemas nem para si nem para outros. Beber dessa maneira, repito, não é problema para ninguém. O que temos falado é de outra coisa: a doença do alcoolismo.

Como já disse outras vezes, sabe-se que aproximadamente 10% da nossa população é composta por pessoas que têm essa doença. São homens e mulheres que entram em contato com o álcool e, progressiva e lentamente, vão desenvolvendo a dependência daquela substância, a ponto de, com o passar do tempo, tornarem-se pessoas de comportamento completamente alheio à realidade, sem falar da incapacidade para trabalhar ou estudar. São pessoas que, se não tratadas, morrerão à míngua e, antes disso, farão seus familiares sofrerem os piores tipos de dor.

Vale destacar, no entanto, que 90% da população pode beber sem sofrer ou causar problemas a quem quer que seja – essas pessoas não têm a doença do alcoolismo. E, obedecidos os limites legais (como, por exemplo, não dirigir embriagado), nada há a se reparar em suas vidas quanto ao uso do álcool. Isso, se muito, é uma questão privada e que não cria problemas de ordem social e familiar – e eu não teria a ousadia (para não dizer a petulância) de dar pitaco na vida de qualquer outro ser humano.

É fato que a vida desses 90% também é prejudicada (e muito) pelos problemas gerados pela dependência química dos outros 10%. Mas querer que os tais 90% deixem de beber, convenha-se, é simplesmente fazer tudo errado.

Lutamos – e lutaremos mais – para que a população como um todo seja informada e esclarecida a respeito da doença do alcoolismo, bem como para que aqueles 10% de doentes sejam abordados, tratados e acompanhados da forma mais adequada.

Contamos que os 90% possam nos ajudar nessa empreitada. Eles são nossos principaisaliados, não há guerra alguma contra essas pessoas.

Paulo Leme, 45 anos, é advogado, fundador do Movimento Vale a Pena(www.movimentovaleapena.org) e escreveu com seu pai, o médico Paulo de Abreu Leme, o livro “A doença do alcoolismo” (www.pauloleme.com.br), além de idealizar o programa “A Voz da Comunidade”, todos os sábados na Rádio 9 de Julho (AM 1600), às 12:20 h. Contato: contato@movimentovaleapena.org.

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